O destino, talvez por um motivo qualquer quisesse que eu estivesse ali, na verdade esse não era exatamente o momento para pensar em algo sobre isso, contudo eu não sabia como começar, olhei a multidão na volta, rostos despreocupados, sorrisos leves, e conversas despretensiosas. Cheguei a conclusão que talvez o natal deixe as pessoas assim, “desligadas” , mas essa minha teoria não iria resolver nada, porque naquele lugar nem todos estavam com o coração carregado de boas intenções.
Depois desse prólogo com a minha
consciência que por incrível que parece durou 3 segundos eu precisava agir e
rápido, bem na minha frente eu vi um papai Noel, daqueles tradicionais, barba
branca longa e falsa, barriga saliente e um enorme saco vermelho nas costas. Sim, uma cena típica de natal em uma
grande loja, a não ser por um detalhe, Papai Noel estava armado. Aquilo foi demais para as
minhas crenças infantis, além de o bom velhinho não existir de fato, agora ela
andava armado. Tudo bem que eu generalizei um pouco, mas foi o que veio em
mente, e confesso isso foi um choque.
Suas
intenções obviamente eram as piores possíveis, foi então que me ocorreu o
improvável, mas naquela situação nada alem disso eu poderia fazer, foi então
que começou a primeira parte da perseguição, a última coisa que vi antes de me
mover foi um vulto vermelho entrando em uma portinhola vermelha com um sinal
vermelho, saliente que dizia “saída”. Despenquei entre, sacolas, pacotes,
pessoas que me olhavam desconfiadas, pensei em dizer algo como, “desculpe, estou
perseguindo o papai Noel armado, não se preocupem”.
Quando
entrei na portinhola a única coisa que vi foi uma escadaria, longa e íngreme
que apenas descia, bom, as coisas estavam ficando interessantes, sabia até o
caminho a seguir. Tentei descer da maneira mais rápida que pude, era metal, escutava
o barulho dos meus sapatos, das minhas sacolas, não estava sendo nada discreto,
foi então que vi uns dois andares abaixo, mais um vulto vermelho, estava no
caminho certo, mas naquela altura, Papai Noel estava sabendo que o seu plano
não havia tido todo o sucesso esperado e estava sendo seguido pelo “justiceiro
natalino”, foi à melhor definição que achei.
Não podíamos descer para sempre,
então avistei a mesma placa vermelho cintilante indicando saída, acho que
ganhei alguns segundos na perseguição a Papai Noel, se muito estava a meio
andar de diferença, alcancei a porta, com certa violência abri. Estava
escurecendo, não me surpreendi que a saída de segurança fosse acabar em um beco,
mas sim com o que vi na seqüência, Papai Noel me fitava com um sorriso sarcástico,
ainda segurava o “Colt”, não sei por que ele iria fazer o contrário, e minha
noite de justiceiro natalino tinha seu fim. Sim podia ter ido para casa, fingir
que não havia visto nada, poderia ter feito tantas outras coisas, mas nada que
eu fizesse agora iria mudar. A única coisa que eu pensei, de forma insana
disse:
-Feliz
Natal. Então olhei para único lugar onde enxergava luz, larguei sacolas, e corri.
Dei
três passos, e ainda continuei vivo, já estava no lucro, continuei, o mais
rápido que consegui, virei a esquerda, entrei na multidão, permaneci vivo,
corri mais um pouco, comecei a caminhar, tinha sido tragado pela atmosfera natalina
novamente e pelo turbilhão de pessoas, agora já rumando as suas casas, pensei
na minha situação, o que preferia não ter feito, na história que eu precisava
contar “Querida estava com as compras feitas, vi um papai Noel armado, resolvi
seguir, ele me rendeu, perdi os presentes, mas to aqui vivo, tudo bem? , você e
as crianças vão ficar bem sem os presentes, certo?” Nada convincente.
O que
uma pessoa que esta fugindo faz quando acha que não precisa mais fugir? Sim,
olha para trás, e quando olhei percebi que não teria sossego, vi um ponto
vermelho procurando espaço entre a multidão e avançava claro, em minha
direção. Começou a segunda parte da
perseguição, agora de forma mais desfavorável, estava em desvantagem. Como já
não tinha presentes, corri, para salvar minha vida. Começou a ficar mais
escuro, já não via tantas pessoas, não fiz questão de olhar para trás,
sinceramente não era necessário, já devia estar em casa, mas fugir do Papai
Noel armado era mais providencial no momento, continuei correndo até não
conseguir respirar, parei, era a hora de arcar com as conseqüências, a batalha
final entre o “justiceiro natalino” e o “papai Noel armado”, e aquilo tudo
teria um fim, bom ou mal, alguém iria sair perdendo, e eu estava em
desvantagem, porém não adiantava mais reclamar, era hora de encarar os fatos.
Cheguei
em casa, fui recebido com entusiasmo, contudo não consegui responder a altura, coloquei os presentes embaixo da
árvore de natal, precisava urgentemente de um banho e vestir o espírito
natalino que naquela noite havia perdido. Abraços, presentes, comida, crianças
correndo, conversas, enfim natal, fui indagado como estava o movimento e se eu
tinha feito o costume de sempre, comprar os presentes na ultima hora, com um ar
se satisfação, disse:
-Sim
sim, sabe como sou desligado, esqueci as sacolas na loja, Um papai Noel,
sujeito impar, percebeu, coitado, precisou correr atrás de mim, mas acabou bem.
Aquelas
foram as minhas únicas palavras na noite.

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